3 de abr. de 2009
Júlio Verne, o cyberpunk do Século XIX
Chia McKenzie usou o cartão de crédito para fazer o download de um conjunto preto, composto por calça e blusão. No dia seguinte, teria uma reunião importante em um site, que ainda estava sendo preparado. Na hora combinada, se conectou. Colocou os sensores de dedos, os óculos especiais. Em poucos segundos foi recebida por uma secretária que a encaminhou ao local onde pelo menos cinco pessoas aguardavam. ”Este site é muito bonito”, disse tentando ser amável com a anfitriã. “Se você for salvá-lo, gostaria de visitá-lo outras vezes, com mais calma”.
Mais de um século separam os dois parágrafos acima. O primeiro, fragmento do ensaio "O dia de um jornalista americano em 2889”, foi escrito em 1889 por Júlio Verne, o pai da ficção científica. Incrível, não? Já o segundo parágrafo sintetiza duas passagens do livro Idoru (pronuncia-se Aidoru), escrito em 1996, pelo americano William Gibson, um dos expoentes do gênero que ficou conhecido como cyberpunk.
Antes de criar Francis Benett, o jornalista do título, o mestre Júlio Verne já havia escrito histórias suficientes para garantir, ainda hoje, uma legião de seguidores. Como eterna recomendação de leitura, citamos alguns aqui: Cinco Semanas num Balão, Viagem ao Centro da Terra, Da Terra à Lua, 20.000 Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em 80 Dias e A Ilha Misteriosa. Verne, é preciso que se recorde, viveu entre 1828 e 1905. Até hoje é um dos autores mais lidos em todo o mundo.
Willian Gibson ganhou projeção em 1984, quando publicou a novela Neuromancer, um sucesso estrondoso que valeu ao autor os principais prêmios atribuídos à chamada literatura de ficção. Foi neste livro que apareceu, pela primeira vez, a expressão cyberespaço, cunhada por Gibson para denominar o ambiente em que estamos ingressando, mas cujo extrato havia sido imaginado quase um século antes por Júlio Verne.
Grande parte da trama de “O dia de um jornalista...” gira em torno do poder exercido por um magnata da imprensa norte-americana, tendo como pano de fundo um cenário sombrio para a época: cidades com dez milhões de habitantes, prédios de 300 metros de altura, aerocarros e aeroônibus rasgando os céus, imensos transformadores de energia elétrica e mísseis transmissores de vírus capazes de destruir uma nação em pouquíssimas horas.
Em Neuromancer, livro ao qual se atribui a origem do movimento cyberpunk, o cenário é o espaço cibernético, onde grandes corporações travam uma batalha pelo controle do comércio de drogas pesadas e informações, reproduzindo uma visão pessimista sobre a sociedade do futuro - a exemplo do que fizera nas telas Blade Runner (O Caçador de Andróides; Ridley Scotty, EUA, 1982). Em posição oposta, os cowboys, especialistas em burlar sistemas de segurança com o auxílio de poderosos softwares piratas. Não nos esqueçamos: tudo isso em 1984.
Cyberpunk foi um movimento literário surgido no início dos anos 80, uma espécie de braço paralelo da ficção científica. Uma das diferenças básicas entre um e outro gênero é provavelmente uma das mesmas que separam Júlio Verne e William Gibson. Um tentou descrever um cenário mil anos à frente. Para o outro, algumas décadas foram suficiente para ambientar um futuro repleto de personagens marginalizados, cenários de realidade virtual e vírus altamente destrutivos. No primeiro caso, não foi preciso esperar mil anos. E para o segundo?
Jornal falado
Um detalhe intrigante: o Earth Herald imaginado por Júlio Verne não é impresso. A cada manhã, milhares de assinantes ocupam os inúmeros “gabinetes fonográficos existentes” e por meio de rápidas entrevistas tomam conhecimento dos principais fatos do dia. “Fotografias intensivas” complementam as informações. Do outro lado do telefone, “cada repórter tem diante de si uma série de comutadores, que permitem estabelecer comunicações com esta ou aquela linha telefônica”.
Johnny Mnemonic
Ao contrário de Júlio Verne, William Gibson talvez seja mais conhecido na Internet do que fora dela. Chegou a ganhar um dicionário que procura explicar e decifrar dezenas de termos e tecnologias descritas em seus livros e contos – um dos quais, Johnny Mnemonic, transformado em roteiro de cinema. Quem se interessar em conhecer mais sobre ambos procure em www.google.com. Como expressões chaves, além dos autores e livros citados acima, sugiro “Eterno Adão”, “Ficção científica cyberpunk”, “La era de Idoru” e “Virtual Matrix”.
Coluna publicada originalmente em O Estado de S. Paulo em 19/07/2001
Rei Viking ajuda Lara Croft a derrotar vilões
Há dez séculos, Harald Bluetooth, um grande rei Viking, uniu a Dinamarca e a Noruega. Conquistou o seu lugar na história, mas passou uma longa temporada esquecido até que ressurgiu de forma secundária em pleno Tomb Raider. Não é o que parece. No filme, Lara Croft, também uma heroína, só que do bilionário mundo dos games, não se envolve com bárbaros escandinavos. Apenas foi escolhida para apresentar uma novíssima tecnologia, recém saída do forno.
O nome do rei viking começou a ser resgatado em 98, quando um grupo de grandes fabricantes de computadores e do setor de telecomunicações anunciou que estava trabalhando no desenvolvimento de uma nova tecnologia, batizada sob o código de Bluetooth – ele mesmo, o pacificador de dentes azuis. A idéia era simples: permitir que um telefone celular realmente ‘’falasse’’ com computadores, impressoras, filmadoras ou quaisquer equipamentos eletrônicos, usando baixas frequências de rádio. Tudo sem fios.
Primeiro foi estabelecido um padrão a ser seguido por todos os fabricantes (www.bluetooth.com). Hoje, chega a 275 o total de produtos e aplicações desenvolvidos desde então com base na nova tecnologia, incluindo o Headset e o Communicator, fabricados pela Ericsson, que a mocinha de Tomb Raider utiliza para manter-se conectada a Bryce, o seu guia tecnológico, enquanto esmurra uns e atira em outros.
Bluetooth é uma tecnologia invisível - você quase não percebe e quando usa acha tudo muito natural. Imagine-se num taxi, com alguém ligando pelo celular para informar que um relatório importante foi enviado para a sua caixa postal. Sem interromper a ligação, você aciona o notebook por meio de sinais de rádio, abre a mensagem, faz algumas correções e devolve o documento por email. Não é coisa do futuro. As tralhas que ajudam a garantir a sobrevivência de Lara Croft na telona foram lançadas comercialmente no início do ano em alguns mercados da Europa e da Ásia. Logo chegarão por aqui.
E com elas, novas perspectivas, como a ‘’massificação’’ de redes locais sem fios, potencializadas pela tecnologia Bluetooth. Se o taxi do exemplo acima estiver circulando em Cingapura, o cenário pode ser ainda mais promissor. Cerca de 500 deles estão sendo equipados, experimentalmente, com uma rede local pessoal – uma PAN, de Personal Area Network - que, por sua vez, estará conectada a outras redes públicas. A partir daí, a imaginação – e não mais fios ou cabos - passa a ser o limite.
Chips em animais
O uso de microchips em animais domésticos chegou mesmo. Seguindo uma prática já comum em diversos países – em alguns deles de forma obrigatória – algumas cidades brasileiras começam a adotar programas de implante de chips eletrônicos, em parceria com sociedades protetoras dos animais ou de medicina veterinária. Os microchips, do tamanho de um grão de arroz, são injetados sob a pele do cão ou do gato com o auxílio de uma agulha e contêm informações sobre o tipo sanguíneo, endereço e histórico médico, entre outras, que formam o ‘‘RG’’ do animal.
Cada chip possui um código individual, gravado a laser e encapsulado em vidro cirúrgico, mesmo material usado em marca-passo. A leitura do código é feita por um scaner que emite um sinal de rádio de baixíssima frequência. Os códigos são arquivados em bancos de dados, permitindo, por exemplo, a rápida localização do proprietário de um animal perdido. Por aqui, o custo de implantação do tal chip varia entre R$ 40 e R$ 70. Em Buenos Aires, onde um programa semelhante está previsto para ter início ainda este mês, a identificação eletrônica de cães e gatos será gratuita, mas obrigatória.
Chipes em seres humanos
Para quem não se lembra ou tem dúvidas sobre onde deverão nos levar iniciativas como estas, podemos recordar dois exemplos relativamente recentes. Em meados do ano passado, jornais europeus divulgaram uma experiência realizada por um especialista que implantou no antebraço um microchip com informações que lhe permitiriam, por exemplo, acessar e movimentar sua conta em terminais bancários.
O outro exemplo é doméstico e mais inquietante. No final de 97, o artista plástico carioca Eduardo Kac, professor de arte eletrônica na The School of the Art Institute of Chicago, causou polêmica ao implantar em seu tornozelo esquerdo (http://www.ekac.org/) um microchip semelhante aos que estão sendo utilizados atualmente em cães e gatos. O chip continha um número com nove dígitos – registrado pela Internet num banco de dados norte-americano.
Alguns críticos interpretaram a iniciativa como um alerta contra possíveis formas de vigilância e controle sobre o ser humano. Outros, acreditaram tratar-se de uma demonstração antecipada de uma espécie de mutação biológica, onde memórias digitais (os chips) são implantadas para complementar ou substituir as nossas próprias memórias (o DNA). Tudo sem fios.
Coluna publicada originalmente em O Estado de S. Paulo em 12/07/2001
Toda a informação em 3 trilhões de CDs
Chegaram a um número fantástico e a várias conclusões. Uma delas, preocupante e polêmica: o mundo estaria produzindo mais informações do que a capacidade do ser humano absorvê-las. Mas esse não era o principal objetivo do trabalho. A pesquisa foi financiada por uma das maiores empresas de armazenamento e gerenciamento de dados em todo o mundo. Na prática, Hal e Aleksey queriam saber o potencial de informações “estocáveis” no planeta.
A Universidade da Califórnia há muito se preocupa com este assunto, tanto que foi a primeira escola nos Estados Unidos a criar uma cadeira de Administração de Informações e Sistemas. Ao quantificar níveis de produção e o estoque de informações (medido em bytes), os dois pesquisadores chamaram a atenção exatamente para este problema. A íntegra do documento pode ser encontrada no endereço http://www.sims.berkeley.edu/.
O levantamento estima entre um e dois exabytes o volume de informações geradas a cada ano em todo o mundo. Para estocar tudo isso, usando as melhores técnicas existentes para a compressão de dados, seriam necessários 3,3 trilhões de CD-Rom. O surpreendente é que “apenas” 100 milhões destes CDs (0,003%) seriam suficientes para armazenar toda a produção mundial de material impresso, sejam livros, jornais, revistas ou medidas provisórias.
Os discos restantes seriam utilizados para guardar a informação que já nasce digital, como por exemplo toda a produção cinematográfica e musical, além de 500 bilhões de documentos existentes na Internet, 80 bilhões de fotografias pessoais e 1,4 bilhão de fitas de vídeo existentes no mundo – segundo as fontes consultadas pelos pesquisadores. A pesquisa conclui que 25% da informação impressa, 30% da informação fotográfica e pelo menos 50% do material arquivado em meios magnéticos estão nos Estados Unidos.
Para medir o consumo caseiro de informações, Hal e Aleksey recorreram ao censo norte-americano e descobriram um dado curioso. Em 1992, uma família americana gastou o equivalente a 3.324 horas assistindo TV e vídeos, ouvindo rádio e músicas em CDs, lendo livros, revistas e jornais, jogando vídeo game e navegando pela Internet. No ano passado, foram 3.380 horas (cerca de 140 dias) utilizadas da mesma forma - um acréscimo relativamente pequeno diante do crescimento aparente da indústria da informação e do entretenimento na última década.
Até mesmo as informações pessoais armazenadas em computadores pessoais foram medidas. Segundo os pesquisadores, nos 200 milhões de discos rígidos instalados no mundo existiriam cerca de 25 mil terabytes de informações, incluindo o conteúdo de 610 bilhões de e-mails enviados no mundo inteiro a cada ano. Hal e Aleksey não pediram, mas a partir de amanhã prometo iniciar uma espécie de racionamento digital e cortar 20% das informações armazenadas no meu computador.
Backup francês
O governo francês tomou uma decisão polêmica: todas as páginas produzidas no país para a Internet terão de ser arquivadas, a exemplo do que já ocorre com jornais, revistas e livros. A Biblioteca Nacional e o Instituto Nacional de Audiovisuais foram encarregados de fiscalizar a aplicação da lei e poderão capturar qualquer página na Internet, mas a responsabilidade pelo arquivamento será mesmo dos responsáveis pelos sites. De acordo como o Europemedia.net (http://www.europemedia.net/), 100 mil sites franceses deverão ser atingidos pela medida, que ainda terá de ser regulamentada.
Erros cinematográficos
Titanic continua na frente, mas Matrix avança e já ultrapassou Gladiador em um ranking que, definitivamente, não leva em conta bilheteria, efeitos especiais ou estatuetas do Oscar. As três super produções lideram a lista de filmes que chegaram às telas com o maior número de erros na montagem ou mesmo no roteiro. Confira em http://www.movie-mistakes.com/, um site organizado por um certo Jon Sandys e uma legião de colaboradores de várias partes do mundo.
Entre os 123 erros atribuídos pelo site ao filme de James Cameron, Sandys anotou casos de figurantes que morreram durante o naufrágio, mas foram ressuscitados nos barcos salva-vidas. Em Matrix, um dos 121 erros apontados estaria na câmera refletida pelas lentes espelhadas dos agentes que tentam capturar Morpheus. Já em Gladiador, os autores do site garantem que viram fumaça saindo de uma carruagem. Até a semana passada, foram catalogados pelo site erros em 1.418 filmes.
Coluna publicada originalmente em O Estado de S. Paulo em 05/07/2001
Mobilização contra a exclusão digital
A íntegra do documento está em http://www.inclusaodigital.com.br/. Vale a pena ler. O texto é curto, toca em pontos fundamentais, mas também comete alguns excessos. Um deles está na proposta de disponibilizar terminais de acesso (à Internet) e correio eletrônico para “toda a população”. Isso significaria eliminar por completo o chamado fosso digital que hoje separa os seis porcento da população brasileira que têm acesso à Internet do restante dos mortais.
Mas não se detenha demasiadamente nesta questão, que soa apenas como demonstração das boas intenções dos organizadores. O texto foi produzido por quem entende do assunto e representa uma síntese das discussões ocorridas durante a Oficina para a Inclusão Digital realizada no mês passado em Brasília. Em outubro, também na Capital Federal, será realizada a Feira Mundial de Inclusão Digital, quando o documento que está na Internet, complementado com as sugestões recebidas até lá, será transformado no Manifesto para a Inclusão Digital, uma espécie de cartilha para nortear as ações do governo na questão da Inclusão Digital.
Bi-alfabetização
Em vez de cartilhas ou cadernos, computadores estão ajudando na alfabetização de várias pessoas no Paraná e em Santa Catarina. O trabalho está sendo realizado com um software desenvolvido pela Copel (http://www.copel.com/) e que tem na interatividade um elemento de dupla eficácia: ao mesmo tempo em que aprende a ler o aluno se habilita a lidar com o computador, num processo de bi-alfabetização. Os resultados alcançados até agora mostram que com apenas 200 horas de aula é possível um aprendizado equivalente às quatro primeiras séries do ensino regular. Outra vantagem do software utilizado é que ele não necessita de computadores potentes para rodar. O programa chegou à Florianópolis graças a iniciativa de um grupo de funcionários da CEF.
Pluto eletrônico
Um jornal eletrônico utilizado em escolas de várias partes do mundo promete ser a grande atração para a garotada da rede pública de Curitiba já no ensino no início do ano letivo de 2001. O projeto, que permitirá uma maior interatividade entre alunos, professores e a própria comunidade, será implantado com a ajuda do Pluto, um software para edição eletrônica desenvolvido pelo Media Lab (http://www.media.mit.edu/), do Massachussets Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos. A Agência Estado traduziu o programa para o português e o doou à Secretaria Municipal de Educação de Curitiba. Na primeira fase, o Pluto será implantado em 11 escolas e utilizados por alunos 5ª à 8ª séries.
Biblioteca virtual
Dois milhões de alunos matriculados em três mil escolas estaduais de São Paulo terão acesso a partir de outubro a quase dois mil livros de 1.245 autores nacionais e estrangeiros. Para entender melhor o que significam estes números acesse o endereço http://www.ensinomédio.sp.gov.br/, criado pelo governo paulista, como carro-chefe de um programa de formação de bibliotecas escolares voltadas para o ensino médio. Na prática, o site vai funcionar como uma livraria virtual, mas com uma série de vantagens sobre todas as demais.
O site vai reunir um catálogo de obras previamente selecionadas por uma comissão da Secretaria de Educação. Além dos títulos, pais, alunos e professores terão acesso à resenhas e informações detalhadas sobre os autores. Definidos os livros, cada escola poderá encomendar um número de exemplares correspondente ao número de alunos. A compra será feita diretamente pela Secretária de Educação, que destinou para o programa uma verba de R$ 20 milhões, suficiente para a aquisição de algo em torno de três milhões de exemplares. As escolas têm até o dia 10 de agosto para selecionar e encomendar os livros, que deverão ser entregues já em outubro.
Festival de curtas
A BMW decidiu investir forte na Internet e reuniu alguns dos mais badalados nomes de Hollywood para um projeto ambicioso, que inclui a produção de cinco curta-metragens para exibição exclusiva na Web. Entre os diretores envolvidos no projeto, estão David Fincher, de O Clube da Luta); Ang Lee (O Tigre e O Dragão), John Frankenheimer (Ronin) e o mexicano Alejandro González Iñarritu (Amores Brutos). No elenco, além dos carros da montadora alemã, astros como Mickey Rourke, Madonna, Thomas Milian, de Traffic e a top model brasileira, Adriana Lima, estrela do terceiro curta da série, The Follow, dirigida por Wog Kar-Wai. O próximo filme (Powder Keg, dirigido por Iñárritu) chega à Internet na semana que vem, mas todos os anteriores permanecem em exibição no endereço http://www.bmwfilms.com/.
Oito anos de música
A MP3.com está comemorando a marca de um milhão de arquivos musicais, em um catálogo que reúne 150 mil artistas de 180 países. Um comunicado da empresa calcula em 4,25 milhões de minutos o “tamanho” do seu acervo. Para se ter uma idéia do que isso representa, basta lembrar que uma grande gravadora precisaria de oito anos de produção contínua para atingir tal marca. Nas últimas semanas, a empresa lançou novos serviços na tentativa de melhorar o caixa. Um deles, batizado como netCDs, possibilita a compra de CD reais ou virtuais.
Neste último caso, os arquivos escolhidos vão para uma área personalizada, o MyMP3, e poderão ser acessados a partir de qualquer equipamento com acesso à Internet, durante o período da assinatura. Mas o lançamento de novos produtos, todos pagos, não significa uma garantia de reforço no caixa. Um estudo divulgado pela Consumer Electronics Association revela que nove em cada dez usuários da Internet nos Estados Unidos fazem download de arquivos multimídias, mas apenas um em cada dez admite pagar qualquer tipo de taxa pelo acesso. A mesma pesquisa mostra que arquivos de músicas em formato MP3 são copiados por 42% dos usuários da Internet.
Coluna publicada originalmente em O Estado de S. Paulo em 28/06/2001
2 de abr. de 2009
Rádios buscam caminhos na Internet
Como muitos outros aspectos na Internet, a resposta não é tão simples. Mas uma boa pista pode estar no ranking mensal da Arbitron, uma empresa especializada em medir a audiência de áudio e vídeo transmitidos pela Internet: entre as 10 emissoras de rádio mais acessadas nos Estados Unidos sete existem apenas no mundo virtual. O número é significativo, principalmente se levarmos em conta que as emissoras tradicionais representam mais de 80% dos endereços www de rádio.
E esta não parece ser uma situação passageira. Desde que o ranking foi divulgado pela primeira vez, em outubro de 99, as emissoras virtuais têm aparecido no topo das listas de audiência. Para os analistas da Arbitron, talvez seja um sinal de que os internautas estão em busca de uma programação que não está disponível nas rádios tradicionais.
E como nunca existiram na forma tradicional, as chamadas rádios “internet-only” não puderam levar para a rede um modelo já existente. Tiveram que inovar no conteúdo, na linguagem e, principalmente, na montagem de grades de programação mais próximas não do ouvinte tradicional de rádio, mas do internauta ávido por explorar as maravilhas da multimídia.
Uma outra conclusão possível é a de que, com os seus sites normais, as emissoras tradicionais demonstram uma preocupação até certo ponto compreensível, mas talvez não tão eficiente: atender ao ouvinte habitual, ao invés de perseguir um público novo, que amplie a audiência, sem que isso signifique mudanças de foco na programação.
Faltam pesquisas neste sentido, mas o perfil do rádio-internauta tem se revelado bem diferente do ouvinte tradicional. A começar pela faixa etária. Boa parte do público que coloca as rádios virtuais no topo dos rankings de audiência tem entre 12 anos e 24 anos. Não é coincidência o fato de ter sido esta mesma turma a responsável pelo sucesso estrondoso dos sistemas de troca de arquivos MP3, que teve no Naspter o seu maior representante.
Uma rádio tradicional com este perfil de público talvez tivesse dificuldades na montagem de uma estratégia comercial de longo prazo. Mas na Internet, ignorar tal público é desprezar uma parcela significativa da audiência. Uma parcela que, na prática, representa a primeira geração genuinamente internauta.
Beethoven.com
A julgar pelos números, público não parece ser o problema da rádio on-line, ao contrário do que ocorre com outros serviços e conteúdos existentes na Internet. No mês passado, algo em torno de 18 milhões de americanos ouviram rádio pela Rede. No total, as 2.300 emissoras auditadas pela Arbitron geraram uma audiência equivalente a 17 milhões de horas em março, um número três vezes maior do que o registrado há dois anos.
Pelo terceiro mês consecutivo, o primeiro lugar no ranking ficou com a Beethoven.com (http://www.beethoven.com/), com 741 mil horas de audiência. A NetRadio (http://www.netradio.com/), outro gigante virtual, conseguiu emplacar dois canais entre as dez estações mais acessadas (NetRadio - 80s Hits, com 293 mil horas, e NetRadio - Smooth Jazz, com 200 mil horas de conexão).
Monte uma rádio
A metodologia é bem diferente daquela adotada nos Estados Unidos, mas quem quiser saber como anda a audiência das emissoras de rádio na Internet brasileira tem um bom ponto de partida no http://www.radios.com.br/. Além do ranking das 100 mais acessadas no Brasil, o site oferece um banco de dados com quase 5 mil emissoras cadastradas, com um sistema de busca por país ou por tipo de programação. O site também apresenta um verdadeiro passo-a-passo para quem quiser montar uma rádio na Internet, inclusive com o download gratuito de alguns softwares necessários para a transmissão de áudio on-demand ou ao vivo.
Semelhanças
Se existem diferenças, também existem coincidências. A maioria das pessoas ouve rádio enquanto realiza outras atividades. A diferença é que, no caso do rádio on-line, as atividades complementares geralmente estão ligadas ao próprio computador.
Europarada
Quem gosta de música pop e quer estar em dia com o que toca nas principais rádios da Europa não precisa sair por aí de site em site. Em um só endereço é possível ouvir – e baixar - as 40 mais do Velho Continente. O Europarada (http://www.europarada.nl/) é um programa da Rádio Nederland (http://www.rnw.nl/) apresentado simultaneamente em inglês, francês, espanhol e português. A versão em português, por sinal, é produzida pelo jornalista Luís Henrique de Freitas Pádua, nascido em Franca, São Paulo, e há 13 anos radicado na Holanda. Por e-mail, ele define a Europarada como uma espécie de União Européia no campo da musica pop-internacional, por reunir as músicas mais tocadas em 18 países do continente. O programa é distribuído gratuitamente à emissoras de rádio de todo o mundo – 400 delas no Brasil - o que faz do programa um dos mais ouvidos na Internet. Ponto para as rádios convencionais.
Televisão ou internet?
Se você tivesse de optar entre o aparelho de televisão e o computador com acesso à Internet com qual ficaria? Agora tente imaginar qual seria a opção escolhida pelo seu filho ou por aquele sobrinho adolescente. Se você respondeu que ficaria com a televisão, mas demonstrou dúvida com relação à segunda pergunta, é provável que tenhamos muita coisa em comum.
Uma pesquisa – a primeira do gênero – realizada pela Edison Media Research revelou que três em cada dez internautas nos Estados Unidos abriria mão da TV para permanecer conectado à Web. Isso significa que algo em torno de 16 milhões de pessoas não teriam dúvidas em abandonar a TV para ficar exclusivamente com o computador. Os responsáveis pela pesquisa consideraram os resultados “significativos”, tendo em vista que a televisão está completando meio século de existência, enquanto a web apenas ensaia os seus primeiros passos.
Como toda estatística, esta também permite uma dupla interpretação. Ao ouvir pessoas que simultaneamente navegam pela Internet e assistem televisão, a pesquisa da Edison poderia ser entendida como uma desilusão dos internautas com o mundo web. Afinal, sete em cada dez deles abririam mão do computador se tivessem de optar entre a Internet e a televisão. Mas como a TV digital vem por aí, é provável que você e eu jamais tenhamos de fazer tal opção.
Coluna publicada originalmente em O Estado de S. Paulo em 21/06/2001