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1 de abr. de 2007

O mercado pós-vida explode na internet

Morte sempre foi uma tema tabu em várias sociedades, mas recentemente ganhou um aliado importante e um campo fértil a ser explorado. Mais de 5 milhões de endereços na Internet abordam e discutem livremente o assunto, ao mesmo tempo em que consolidam um mercado que se tem revelado extremamente lucrativo.

Destaco quatro ou cinco histórias recolhidas na Web e que ilustram bem o tamanho desse mercado. Algumas podem parecer mórbidas – certamente, muitos entederão assim -, mas vamos tentar deixar de lado, temporariamente, ao menos, preconceitos ou juízos de valor.

A primeira dessas histórias diz respeito a uma celebração que se repete há 40 anos, quando familiares e amigos de James Bedford se reúnem para um aniversário diferente. Não há o tradicional “parabéns prá você”, tampouco os votos de “muito anos de vida”, mesmo porquê James Bedford, o homenageado, morreu em 1967, logo após completar 74 anos.

No mesmo dia em que morreu, a família mandou congelar o corpo, um desejo várias vezes reiterado pelo próprio Bedford. Jamais passaria pela sua cabeça episódios como a Guerra do Golfo, a derrocada do Império Soviético, o ataque às torres gêmeas do WTC, o enforcamento de Sadam Hussein e muito menos a eleição de Luiz Inácio da Silva para a presidente. Mas James acreditava na possibilidade de, “um dia, no futuro”, ter a sua vida restaurada e descobrir que o câncer que o matou deixara de ser um desafio para a medicina.

Foi o primeiro homem a ser congelado com base em métodos científicos. Depois dele, milhares de pessoas foram submetidas à mesma técnica, a criogenia. De maneira simplificada, funciona assim: retirar-se todo o sangue do cadáver e o substitui por uma substância anticongelante, seguida pela imersão de todo o corpo em um tubo repleto de nitrogênio líquido.

O processo completo já foi testado com êxito relativo em pequenos animais, mas não há garantias de que possa dar certo com um ser humano. Pelo contrário, cientistas de renome garantem que o sonho de Bedford continuará a ser sempre um sonho, (ele “pensa” que está dormindo), exceto no que diz respeito à cura para o câncer.

Tal certeza não é compartilhada pelos pesquisadores da Alcor Life Extension Foundation (www.alcor.org) e do Cryonics Institute (www.cryonics.org), apenas duas entre um vasto leque de empresas que atuam nesse segmento – o congelamento de seres humanos com vistas a uma hipotética ressurreição.

A primeira procura se defender contra as críticas que recebe de todosos lados, dizendo que “apenas preserva o corpo hgumano em estado viável para possa ser tratado no futuro”, apostando, como muitos outros no avanço espetacular da medicina.

Já o Instituto Crionics vai direto ao ponto, a julgar pelasua página na internet, com o sugestivo apelo “sua última chance de viver”, em lugar de destaque.

A taxa de inscrição para programas como esses não é alta, mas o custo total, com direito a assistência permanente por um período de até dois séculos, pode chegar a US$ 120 mil, sob a forma de um seguro de vida contratado pelo interessado e que tem nas empresas os principais beneficiários.

Em pelo menos um caso, a questão foi parar nos tribunais.

Uma das filhas do lendário Ted Willians, um dos maiores nomes do beisebol americano, morto em julho de 2001, aos 83 anos, tenta reaver o corpo do pai, que repousa em uma das urnas da Alcor. Willians foi congelado com autorização do filho mais velho, supostamente para atender um pedido feito anos atrás pelo astro.

A filha argumenta que o pai jamais manifestou tal intenção e desconfia que o irmão pretenda vender – bem caro – “porções” de DNA do maior nome do beisebol em todos os tempos.

Além das centenas de corpos congelados (a uma temperatura que pode chegar a 300 graus negativos), pelo menos outras mil pessoas de várias partes do mundo (o Brasil, inclusive) encontram-se na lista de espera da Alef e do Cryonics.

Crematórios viram fabricantes de diamantes

De olho nas estatísticas de órgãos oficiais que apontam um índice de 25% de cremações nos Estados Unidos, várias empresas tentam inovar com um leque bem variado de opções para as cinzas de entes queridos. A criatividade neste mercado passa a ser o limite, como demonstra o pessoal da LifeGem Memorials (http://www.lifegems.com/). A empresa, com sede em Chicago, promete produzir diamantes inteiramente produzidos com cinzas de seres humanos, como forma de, literalmente, eternizar parentes e amigos.

A técnica utilizada é relativamente simples: as cinzas decorrentes de uma cremação tradicional são purificadas em forno especial capaz de atingir uma temperatura próxima dos 1.700 graus centígrados. O resultado é uma quantidade de carbono – o mesmo material dos diamantes – que é submetida a um processo de compressão por um período mínimo de um mês.

Dependendo da quantidade de cinzas de cada “cliente” é possível conseguir-se até 50 diamantes. Os preços variam entre US$ 4 mil e US$ 22 mil, dependendo do grau de pureza do diamante. As cinzas não utilizadas são devolvidas à família e poderão ser utilizadas para a reposição das peças em caso de roubo ou perda.

Diamantes sintéticos, é bom que se diga, são fabricados há mais de meio século, mas esta é a primeira vez que cinzas humanas estão sendo utilizadas na fabricação desses pequenos objetos de desejo. No Japão, mais de 90% dos mortos são cremados, o que me leva a prever um futuro promissor para a atividade.

Uma obra de arte macabra

A Memorial Art (http://www.memorialart.com/), uma empresa localizada no Mississipi, aposta num segmento do mercado pós-vida no mínimo curioso: obras de artes como uma forma “elegante de demonstrar amor e perpetuar um sentimento”. Cinzas humanas e de animais de estimação são usadas pela empresa em quadros ou esculturas, próprias ou de terceiros.

A técnica foi criada e aperfeiçoada quando uma das sócias da Memorial Art revolveu utilizar as cinzas da própria mãe em uma tela. O resultado agradou e as encomendas, segundo ela, nunca mais pararam. As cinzas são colocadas com bastante cuidado sobre telas, de modo a não interferir na pintura.

Quem também está de olho neste mercado, é a Eternal Reefs (http://www.eternalreefs.com/), uma empresa criada mais recentemente para atuar no gerenciamento de cemitérios submarinos. As cinzas são colocadas dentro de pequenas esferas de cimento, que juntas, formam uma espécie de coral artificial.

Um banco de coral, depositado no litoral da Flórida ou da Carolina do Norte, pode chegar a US$ 5 mil, mas a empresa oferece a opção de corais coletivos, formado a partir das cinzas de vários mortos, ao custo unitário de US$ 850. No site da empresa, além de vídeos e fotografias, é possível conferir o calendários dos próximos funerais submarinos.

Opções bem mais mais caras do que as citadas acima são oferecidas pela Houston's Celestis (http://www.memorialspaceflights.com/). Em vez do mar, a empresa optou pelo espaço como depositário dos restos mortais de seres humanos. As cinzas são acondicionadas em pequenos recepientes de alumínio e lançadas a partir de uma base aérea localizada na Califórnia.

O preço é salgado. A Celestis cobra cerca de US$ 1 mil por cada grama de cinza depositada na órbitra terrestre. Se o destino for a órbitra lunar, o preço sobre para US$ 12,5 mil, valor cobrado para o transporte de um frasco com sete com sete gramas de cinzas.

Quem não gostaria de olhar para o céu e sentir que um ente querido está neste momento em algum ponto do Universo?, provoca um porta-voz da Houston' Celesties. Os cilindros com as cinzas percorrem uma distância equivalente a 28 mil vezes a órbitra do planeta antes de retornar à atmosfera terrestre, quando se desintegram (tanto o cilindro quanto o seu conteudo, é bom que se diga).

Toda a trajetória das cinzas - até a evaporação - pode ser acompanhada no próprio site, por meio de mapas online. Uma “cerimônia” que asssiti indicava que o reingresso na atmosfera terrestre ocorreu em uma região da Austrália.

Cinzas famosas e anônimas

Antes de morrer, em agosto de 2002, Edward Headrick, inventor do frisbee, aquele disco de plástico que os americanos adoram lançar uns para os outros, pediu aos seus familiares que suas cinzas fossem colocadas no interior de um desses brinquedos voadores especialmente modelados para a ocasião. O disco, segundo Headrick, não deveria ser guardado, mas “jogado por aí” para que alguém, sem saber da história, ficasse com ele. Ninguém sabe ao certo se o pedido foi ou não atendido, no todo ou em parte. Há quem jure que sim.

Já a Forever Entrepises, responsável pela administração de vários cemitérios na Califórnia, Kansas e Missouri, acha injusto que recordarmos nossos antepassados apenas por um nome, um par de datas ou mesmo um determinado fato talhados na pedra sepulcral. Por isso resolveu colocar no mercado o primeiro memorial multimídia. Trata-se do ForeverNetwwork (www.forevernetwork.com), uma superprodução digital capaz de fazer inveja a algumas produções de Hollywood.

O pacote completo, oferecido no site da empresa a US$ 4 mil, inclui um documentário com os principais fatos ocorridos desde o nascimento até a morte do ente querido. O material é exibido em telas de plasma líquido durante o funeral e permanece disponível para a posteridade, podendo ser reeditado, por exemplo, para receber novos conteúdos.
Talvez não seja por acaso que um dos maiores cemitérios da Forever Entrepises, o Hollywood Memorial Park, encontre-se localizado próximo aos estúdios da Paramount. Ali, estão sepultados, entre outros, o ator Rudolph Valentino (1875-1926) um dos maiores nomes da história do cinema.

A expansão dos velórios virtuais

Administração moderna de cemitérios, com o uso das mais modernas tecnologias, não é privilégio de americanos, como demonstra o Grupo Vila (www.grupovila.com.br), que há mais de meio século administra alguns dos maiores cemitérios instalados no nordeste brasileiro. Um dos destaques do grupo empresarial é o Cemitério Morada da Paz, considerado um dos mais avançados do País, dotado, inclusive, de um ateliê próprio, de onde saem as obras de artes que decoram o cemitério.

Mas a grande novidade não está no luxo e conforto oferecidos pela Morada da Paz, mas no velório virtual. Web câmeras estrategicamente instaladas permitem acompanhar ao vivo, pela Internet, as últimas homenagens aos mortos. A intenção, de acordo com os administradores do cemitério, é permitir que parentes e amigos que moram em outras cidades ou mesmo fora do País possam acompanhar o velório e prestar solidariedade à família. Faz sentido, não faz?